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| » segunda-feira, 16 de janeiro de 2006 |
Meu novo espaço ficou pronto. De agora em diante, textos novos apenas no endereço abaixo:
Mais explicações, só lá.
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| » sábado, 31 de dezembro de 2005 |
Enquanto o meu blog novo não fica pronto, resolvi aproveitar que o weblogger milagrosamente se dispos a colaborar com seus assinantes para deixar um textinho que estava guardado no meio das minhas muitas anotações.
Trascrição livre de uma conversa presenciada em uma festa de fim de ano com pessoas do meu novo emprego (sem pagar os direitos autorais para os seus autores).
Como eu estava curtindo uma puta ressaca da balada da véspera, não consegui beber para me inspirar e falar asneiras mas, fiquei bem atento ao papo alheio.
- Eu toco violão e guitarra, e você ?
- Eu toco campainha e sino, mas o meu forte mesmo é tocando apito.
- Eu toco orgão !
- Orgão eletrônico ?
- Não, orgão sexual.
- E eu toco o foda-se.
Essa festa foi um evento muito cultural.
Creio que não postarei mais esse ano, de forma que deixo meus votos de saúde e sucesso a todos os passantes e leitores fiés, e aos muitos amigos que fiz com essa diversão chamada blog.
E enquanto eu escuto a versão 2005 daquela clássica marchinha de carnaval (diz mais ou menos assim: "bengalada na cabeça, lá vai Mariza, lá vai petista ..."), eu me recordo daquela velha questão sobre os primórdios da internet: "O que é que você fazia na internet antes de ter um blog ?".
Boas festas a todos.
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| » quinta-feira, 1 de dezembro de 2005 |
Hoje em dia toda espécie imaginável de problemas da ciência física, da engenharia, das ciências logísticas e sociais está sendo atacada com sucesso pelos programadores de computador. Por isso, pode-se dizer seguramente que a única condição requerida para simular o pensamento, em qualquer máquina processadora de informação digna desse nome, é uma formulação exata ou um algoritmo para o processo de pensar.
( Roger A. Macgowan & Frederick I. Ordway, Inteligência no Universo )
Coloquei essa citação porque esse é o argumento frágil que eu pretendo derrubar
hoje.
Mas antes de fazê-lo, uma breve resenha sobre esse livro, que foi em parte lido
durante uma de minhas últimas viagens.

INTELIGÊNCIA NO UNIVERSO, ROGER A. MACGOWAN & FREDERICK I. ORDWAY
Um livro alicerçado em centenas de citações de trabalhos científicos que,
inicia-se com as teorias de formações dos sistemas solares e planetários, até
chegar nas teorias de surgimento da vida inteligente nesses sistemas.
Alguns argumentos puramente empíricos tentam conduzir a um raciocínio simplista
de que, devem existir outras formas de vida inteligente em outros sistemas
planetários que não o nosso, e que essas formas inteligentes devem ter aspectos
físicos e comportamentais similares aos nossos.
Não só isso, os argumentos baseados nos trabalhos primordiais da ciência da
computação e, da até então embrionária inteligência artificial, dão conta de que,
assim como nós, todas as formas inteligentes deverão buscar a criação de
entidades inteligentes artificiais, cuja finalidade é comandar a vida dos
próprios seres que as criaram, além de procurar por outras formas de vida na
galáxia.
Mesmo sendo um livro escrito há quarenta anos, é de admirar que tanto empirismo
seja fundamentado em trabalhos científicos, que de fato mais parecem com uma
pseudo-ciência ou um charlatanismo.
De qualquer forma, a leitura foi interessante por permitir uma comparação entre
as perspectivas existentes em meados dos anos 60 e do que é o mundo atual.
Muitas pessoas desinformadas e desprovidas de um senso crítico, tendem a
acreditar na ficção como se essa fosse de fato muito próxima da realidade.
Mesmo a mídia das massas tem uma enorme capacidade de interferir no
discernimento que os espectadores fazem da realidade, sendo que os mais fracos
parecem viver em um mundo limítrofe entre o real e o fictício.
E uma idéia abordada nesse livro, e que serve de tema para muitos filmes e
estórias de ficção científica, é a da escravização dos seres humanos por
computadores e máquinas inteligentes (e/ou conscientes) criadas por nós mesmos.
O tema é tão recorrente que muitas pessoas temem que estejamos realmente
próximos de uma situação desse tipo.
O que as pessoas não sabem é que, mesmo depois de mais de cinqüenta anos da
publicação do artigo germinal da inteligência artificial (IA), ainda não estamos
sequer próximos de resultados minimamente satisfatórios nessa área.
E uma razão para o fiasco da IA como ciência é que não sabemos como funciona o
nosso próprio cérebro, sendo que não é sequer possível afirmar categoricamente
que o raciocínio do nosso cérebro pode ser de fato descrito por meio de
representações algoritmicas.
Esse é um dos poucos temas sobre o qual eu posso discorrer com profundo
conhecimento de causa, afinal de contas, meu trabalho de mestrado foi sobre
o uso de técnicas de inteligência artificial.
A seguir, um pequeno texto elucidativos sobre o assunto.
Esse texto é uma adaptação de um artigo que eu escrevi ano passado para a
apresentação de uma palestra em um congresso de informática.
Tentei deixar a versão abaixo mais palatável aos leitores sem grandes
conhecimentos científicos, principalmente no que diz respeito ao vocabulário
empregado.
O que é Inteligência Artificial (baseado no artigo de 01/06/2004)
Antes de discorrer sobre o que é Inteligência Artificial, ou simplesmente
IA, é necessário entender o que seja inteligência.
De acordo com o dicionário Aurélio, inteligência é a capacidade de
resolver situações problemáticas novas mediante reestruturação dos dados
perceptivos.
Em seu livro "O Sítio da Mente", Schützer amplia essa definição citando a
capacidade de improvisação e criação como características fundamentais da
inteligência.
Ainda de acordo com Schützer, para resolver problemas que não são novos bastam
conhecimento e técnica, sendo a inteligência dispensável nessas situações.
Com o avanços dos computadores digitais nos anos 50, a área de Inteligência
Artificial foi proposta como uma maneira de tentar entender as entidades
inteligentes a fim de criar máquinas com capacidades intelectuais semelhantes às
do homem.
Em 1950 o matemático Alan Turing, um dos precursores da IA, definiu
que um comportamento inteligente é a habilidade de atingir um desempenho em um
nível semelhante ao do homem em todas as atividades cognitivas, de forma que um
inquiridor humano não seja capaz de distinguir em um teste conjunto quem é
máquina e quem é homem.
Esse conceito originou o que ficou conhecido como teste de Turing, uma
maneira de aferir a inteligência de computadores e autômatos.
Quem assistiu ao filme Blade Runner
deve recordar-se de uma cena em que o personagem Rick Deckard, interpretado por
Harrison Ford, faz uma entrevista com Rachael, interpretada por Sean Young, a
fim de descobrir se ela é humana ou replicante.
Esse é o teste de Turing mais célebre do cinema de ficção.
Desde 1991 Hugh Loebner organiza anualmente a competição
Loebner Prize Competition, onde os
competidores tentam passar pelo teste de Turing.
Apesar dos recentes avanços, o premio de 100 mil dólares para o competidor que
consiga passar no teste ainda não foi entregue.
Isso significa que a nossa IA ainda é tão incipiente que não é capaz de
durar mais do que três minutos sob as perguntas em um teste de Turing.
A razão para os modestos avanços da IA como ciência devem-se ao fato de
ainda não dispormos de muitos conhecimentos sobre o funcionamento do nosso
cérebro.
A neurociência tem tidos avanços excepcionais, mas os conhecimentos sobre o
funcionamento do cérebro ainda são irrisórios.
Schützer apontou indícios da existência de aspectos não-determinísticos na
consciência, ou seja, ela parece depender de eventos fortuitos ou aleatórios.
Nos livros "A nova mente do rei" e "O grande, o pequeno e a mente humana", o
matemático Roger Penrose sugere a existência de fenômenos quânticos no cérebro,
ou seja, fenômenos que não podem ser determinados com exatidão mas, apenas por
meio de processos estatísticos.
Se isso for de fato uma verdade, explicaria o não-determinismo da consciência e
de certos fenômenos cerebrais.
E a conseqüência disso é que, se a consciência realmente é não-determinística,
então ela não pode ser descrita por um algoritmo e portanto, não poderá ser
recriada artificialmente em circuitos e programas de computadores digitais.
As idéias de Fritjof Capra apresentadas no livro "O ponto de mutação" opõe-se
frontalmente àquelas defendidas por René Descartes, segundo o qual o homem é uma
criatura que pode ser facilmente descrita por um modelo mecanicista.
Os percalços da nossa medicina em aplicar um mesmo tratamento a indivíduos
aparentemente semelhantes comprovam que Capra está correto, a despeito dos
insustentáveis elementos da filosofia de Descartes.
Muitas são as evidências teóricas e empíricas que se contrapõe a idéia de uma
inteligência artificial ou, pelo menos como costuma dizer Waldemar Setzer, da
imbecilidade automatizada.
Em breve voltarei ao assunto, mesclando as belezas da matemática do caos com a
inteligência artificial.
E como esse post foi um pouco pesado, não hesitem em comentar e
enviar perguntas sobre o tema.
Eu certamente não deixarei de responder.
PS: A demora por esse texto não foi (só) por preguiça mas, por uma série de problemas técnicos com o Weblogger !
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| » domingo, 13 de novembro de 2005 |
Para quem perdeu a Avant-Premiére, quando os astros chegaram em
pomposas limusines brancas e foram recebidos em uma bela festa com tapetes
vermelhos, champanha Veuve Clicquot, sempre ovacionados pela imensa multidão
presente, hoje tem mais um hai-kai publicado assim meio
100 Querer.
A parceria, firmada na base do encantamento mágico fantástico, entre o "alpha
tauri" e a Luci está trazendo uma novidade nessa sua segunda edição.
É que a Luci precisou ausentar-se e resolveu me entregar a chave da casa.
Sim, eu morro de medo de cupins pois sou um grandíssimo cara de pau.
Por isso, aceitei as chaves e fui logo entrando e me sentindo super a vontade.
Tomei umas cervejas e meia garrafa de schnapps que estavam na geladeira, e até
comi umas sobras de pizza.
Só não deixei rastros de sujeira.
Quando eu me preparava para sair, estava tudo sinistramente escuro e assustador.
Daí eu deixei um hai-kai para celebrar o momento.
Prestigiem e divirtam-se.
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| » sexta-feira, 11 de novembro de 2005 |
Sim, estou com o nome no SPC e sendo processado judicialmente.
Eu estava precisando de algumas coisas.
Fiz umas promessas que foram prontamente atendidas.
Mas estou com três parcelas do carnê do dízimo atrasadas.
Caí no lugar-comum: "promessa é dívida".
Estranho Escritor (escrito na madrugada de 8/11/2005)
Começou ingenuamente, como qualquer paixão.
E ao mais desapercebido descuido, tornou-se logo um vício.
Doença rara, daquele tipo para o qual não se conhece a cura.
Uma contingência de uma alma perturbada, que busca incessantemente um desvio
para o obstáculo que se lhe impede a passagem.
Um alívio para o tormento que lhe tirava o sono e a alegria de viver.
A bonança era tudo o que queria.
Chegou no horário marcado àquele prédio pouco imponente.
O mármore carrara do vestíbulo contrastava com a fachada de pintura descascando
qual um pardieiro suburbano.
A recepcionista não foi como tantas outras "decepcionistas" da vida.
Sentou-se a esperar, enquanto preenchia mais uma ficha.
Entre um campo e outro do formulário, uma discreta olhadela naquelas madeixas
vermelhas, e naquele voluptoso par de pernas.
A entrevista não teve quaisquer surpresas além do corriqueiro jogo de forças: um
tentando oferecer menos do que vale, o outro tentando conseguir mais do que
merece.
Mas antes da tradicional despedida "até nunca mais", o elemento extra dessa
incomum visita: "você poderia escrever uma redação de no mínimo 20 linhas ?"
Redação, EU ?
O tema é livre.
TEMA LIVRE ???
Sentou-se novamente no mesmo lugar, e logo chamou a recepcionista.
Tema livre mesmo, posso escrever o que eu quiser ?
Claro, contanto que sejam ao menos 20 linhas, sem rascunho e sem rasuras.
OK.
Que desculpa vulgar para ver aqueles belos glúteos balançando na sua frente
outra vez.
E já que ela insistiu, escreveu sobre o assunto que logo emergiu em sua fluida
mente, sem que precisasse fazer qualquer esforço.
A caneta corria sozinha em sua mão, e quando percebeu, já tinha mais de 40
linhas de um texto que parecia uma reportagem de capa sobre um de seus assuntos
prediletos: "A literatura de blogs e sua influência na indústria editorial".
Mas antes de entregar a folha, tomou coragem para aquele ato que seria sem
dúvida o seu galanteio mais audacioso: "você pode tirar uma cópia para mim ?"
A ruivinha aceitou apenas após a ameaça de que ele sairia desvairadamente
correndo porta fora com aquele valioso original, que sem dúvida lhe garantiria
uma cátedra de imortal, ou no mínimo, o premio Jabuti.
Na segunda vez, o pedido para escrever foi feito logo após a sua chegada.
E novamente o tema era livre.
Isso se repetiu muitas vezes.
Já havia discorrido sobre os mais diversos e pertinentes temas como "O taoísmo
tibetano, a meditação za-zen e a escrita de hai-kais como caminho para o
equilíbrio dos bodhisattvas sul-americanos", "O salmão chileno, a culinária
japonesa e suas influências na diversificação da cultura afro-brasileira", "As
flutuações bruscas no campo magnético do cinturão de Van Hallen como um possível
vetor das alterações genéticas causadoras da doença da vaca louca" e "A
comemoração do dia internacional do Saci Pererê nas comunidades naturistas da
chapada dos veadeiros".
Depois da quinta entrevista, não hesitou em procurar um editor.
Ao mostrar todas aquelas fotocópias dos seus originais foi logo levado a assinar
um contrato para escrever um livro de contos fantásticos.
Nessa oportunidade, ficou um pouco frustado por não ter sido entrevistado e não
ter feito o tradicional "teste".
É que a assistente editorial era um filé loiro de mulher.
Mas não se deixou abalar por isso.
Todos os domingos, selecionava as melhores ofertas do caderno de empregos a fim
de marcar pelo menos de oito a dez entrevistas para a semana.
E prometeu: no final do ano prestará o vestibular.
Na real, só queria fazer a prova de português e a redação.
É que lhe disseram que entre as fiscais da FUVEST sempre há universitárias
sensuais e corpulentas.
Inspiração não vai faltar.
Eu queria publicar algo sério.
Mas no final, essa minha'lma circense sempre avacalha tudo.
E um viva ao vinho chileno.
Felizardos os brasileiros que podem se permitir tais prazeres etílicos e
gustativos.
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| » quinta-feira, 10 de novembro de 2005 |
Os funcionários do centro de tratamento da Bonheur, por sua vez, sentados diante dos painéis de terapia, observando as telas e os indicadores, estavam treinados para apertar as teclas certas, providenciando um tratamento para a preservação da vida. Substâncias químicas, fluidos humanos sintetizados, estímulos e desestímulos sexuais, tratamento de freqüência de rádio (que imitava o de verdade) eram enviados. A radioterapia era baseada na teoria de que a carne humana era uma onda eletromagnética solidificada, um cristal maleável composto por um multiplexo de freqüências ... cada órgão, cada organela, cada proteína, cada nucleotídeo com seu ritmo próprio, o corpo inteiro sendo uma sintonia de melodias, uma meta-canção, um Acorde Aleatório, um harmônico da música até então não computada das esferas ... O corpo é um transmissor. Ele envia ondas eletromagnéticas (fracas) e as recebe.
( Sol Yurick, A grande fuga (Futuro Proibido) )
Antes que eu tenha demasiado acumulo de trabalho, algumas resenhas de leituras
recentes e interessantes.

FUTURO PROIBIDO, J.G.BALLARD, W.BURROUGHS, B.STERLING, W.GIBSON
Um conjunto de contos de ficção (científica ?) de autores diversos, norteados
por uma característica comum: todos os textos reunidos nesse volume foram
recusados por outros editores, seja pelas suas idéias aberrantes ou ofensivas,
seja pela estética totalmente não convencional.
Mesmo tendo nomes de peso entre seus colaboradores, os contos mais
surpreendentes dessa antologia foram escritos pelos menos conhecidos Sol Yurick
e Robert A.Wilson.
É interessante notar também a influência do trabalho de Charles Fort nos textos
de vários dos colaboradores desse volume.
 
PANAMÉRICA, JOSÉ AGRIPPINO DE PAULA
Uma sucessão desenfreada de fatos praticamente desconectados, narrados com uma
linguagem com características peculiares, que sob certos aspectos remete aos
trabalhos dos beatnicks.
Quase todos os personagens são celebridades norte-americanas, sendo que uma das
possíveis leituras para a obra é a de uma grande sátira ao vazio da indústria
cultural e cinematográfica americana.
Um livro de grande influência na estética de diversos autores brasileiros, e que
é também uma obra de um apurado senso de humor.
Sim, eu estou ciente que o Weblogger não é um sistema muito confiável.
Essa é sem dúvida a razão para os tão comuns movimentos migratórios.
Entretanto, já li reclamações de usuários de todos os serviços gratuitos de blog.
Procurei alguns serviços alternativos mas, para minha decepcionante surpresa
muitos deles não permitiam o uso de termos de baixo calão nos textos.
Porra, eu achei uma puta sacanagem não poder escrever uns bons palavrões de vez
em sempre.
Por isso é que eu resolvi ressuscitar uma velha idéia e estou escrevendo o meu
próprio sistema para publicar meus textos em um domínio próprio, a ser divulgado
futuramente.
Vai levar no mínimo uns dois meses até que fique pronto.
Isso significa que eu não farei uma mudança precipitada agora para ter que
refazer tudo em um espaço de tempo muito curto.
Sejam pacientes.
E para os apreciadores, amanhã eu pretendo publicar um conto que escrevi essa
semana.
Só falta digitar.
Do interior da ampla vagina de Marilyn escaparam dois fetos transparentes escorregando nos lábios vermelhos e úmidos e agarrando-se aos grossos pêlos saltaram para o solo, trocaram algumas frases entre si e depois um deles introduziu a cabeça entre os lábios moles e vermelhos e retirou uma bandeira branca. O feto transparente e rosado agitou a bandeira branca ao longe, e eu retirei o binóculo e disse para Di Maggio ao meu lado que os fetos queriam iniciar conversações para a paz. Di Maggio chamou uma negra que serviria de intérprete e nós três descemos a colina nos introduzindo entre as pernas de Marilyn Monroe. Quando nós atingimos os volumosos joelhos o vento soprava da porta peluda para nós e trazia o cheiro fétido de peixes em decomposição e animais mortos. Eu e o ágil atleta fomos obrigados a colocar as nossas máscaras contra gases, e a negra que servia de intérprete colocou a sua máscara e nós três nos aproximamos dos dois fetos. A negra falou algo na linguagem dos fetos, e os fetos transparentes e rosados responderam emitindo gritinhos finos.
( José Agrippino de Paulo, Panamérica )
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| » quinta-feira, 3 de novembro de 2005 |
Há uns 8 meses esse blog comemorou seu milésimo acesso.
Foi uma festa memorável, em pleno carnaval, com direito a mulatas,
porta-bandeira, ala das baianadas e até samba enredo.
Naqueles primórdios eu era o meu maior leitor, sendo que no mínimo 100 daqueles
1000 acessos haviam sido feitos por mim.
Devido a alguns distúrbios mentais que insistem em me assombrar, ainda hoje eu
venho aqui casualmente como leitor, e me divirto bastante com os absurdos que
fui capaz de escrever.
Mas agora, com 10mil acessos, as coisas tomaram uma dimensão bem diferente.
Não que eu escreva meus textos e aventuras no alpha com a preocupação de contar
o número de acessos.
Entretanto, se há muitos acessos e leitores, é porque várias pessoas gostam do
que encontram nesse humilde espaço.
E foi pensando em homenagear os leitores do "alpha tauri" que eu resolvi fazer
uma nova mudança visual.
É que eu li não sei aonde, que um bom blog deve mudar a arte visual duas vezes
ao ano.
Acho que isso me impressionou ou, no mínimo, está afetando o meu inconsequente subconsciente.
Eu já contei essa estória outrora mas, vou repetí-la para os que chegaram
atrasados.
O nome de batismo desse blog é a designação científica de uma estrela singular,
chamada de alpha da contelação de touro.
Em latim, touro é tauri.
E a astronomia convencionou chamar de alpha a estrela de maior brilho de cada
constelação.
Brilhante, não acham ?
Para mudar um pouco o visual do blog, fui até a fazenda "alpha tauri" e
selecionei dentre todos os touros reprodutores, aquele que fosse o mais viril.
Chamei o Reinaldo, o capataz da
fazenda, para um servicinho f*dido.
O Reinaldo, que não é peão fuleiro pra tomar capote de touro, marcou o lombo do
animal, sem hesitar se esse era febril ou bandido.
Agora esse touro alpha é o novo mascote e símbolo supremo do blog "alpha tauri".
Percebam que esse é de fato um macho alpha, ou seja, um macho dominante, auge da
seleção dos melhores exemplares da raça.
Enfim, um reprodutor nato.
Apreciem com o respeito que lhe é devido, a imponência da bolsa escrotal desse
animal.
Não é como a dos machos beta e gama, que pretendendo se fazer passar por machos
alpha, inescrupulosamente aplicam próteses de silicone aos seus escrotos,
ludibriando assim as fêmeas incautas.
Esse é um animal que cobre dez mil fêmeas em 8 dias, sem parar para comer nem
ficar cansado com a labuta.
Um animal cuja estrela brilha intensamente, trazendo muitas alegrias ao seu dono.
Também fiz algumas outras mudanças gerais, como as formas curvilíneas para
aprimorar as características anatômicas do blog.
Agora que as caixas tiveram suas formas arredondadas, ninguém mais vai poder
dizer que "o blog não está entrando".
Escolhi um conjunto de fontes de letra mais apropriadas e que oferecem uma
melhor experiência visual, tornando a leitura mais fácil e prazerosa.
Portanto, sem aquela velha conversa de que "eu não entendi nada".
Mentira, por conta da fonte de letra agora está fácil de ler.
E finalmente, reorganizei a lista dos blogs que eu leio (quando não estou
trabalhando em demasia).
Eliminei da velha lista todos os cadáveres, e aproveitei a deixa para fazer
algumas inclusões providenciais (e algumas pendentes também).
Espero que com tudo isso, consiga enfim agradar a maioria.
E para não me delongar por demais em prosas extensas e prolixas, o prometido
hai-kai escrito após a oficina da semana passada.
Hai-Kai
Touro viril
teu fardo diário
cópulas, mil.
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| » domingo, 30 de outubro de 2005 |
Auto-antropofagicamente (acabei de cunhar esse termo !) vou aproveitar alguns
dos meus poucos bons momentos e vou citar uma das minhas pérolas:
"Não sei se eu me divirto mais escrevendo esses textos aberrantes bizarros que
aqui publico, ou se é lendo os magníficos comentários que recebo de vocês."
A auto-referência é apenas uma maneira efática (enfártica ?) de reiterar aquilo
que já foi dito e que expressa de forma irredutível o sentimento em voga.
Recentemente me senti compelido a dispender várias horas ociosas conjeturando
sobre qual o tipo mais apreciável de comentário: a homenagem sincera ao texto
bem escrito, a troça ao retardamento mental e falta de criatividade e habilidade
em concatenar algumas dúzias de palavras linearmente consistentes e relevantes,
ou os apelos rasgados e desesperados após alguns poucos dias sem um post novo
qualquer.
Creio que sem dúvida o terceiro tipo é o mais cativante.
Meu obrigado aos poucos que me enviaram emails e comentários com tal preocupação.
Saibam que eu estou vivo, apesar de ter sido sequestrado pelo meu gerente e
estar vivendo em um cativeiro aqui no escritório, trabalhando quase quinze horas
por dia, comendo sobras e migalhas e dormindo três ou quatro horas em um catre
fétido e imundo em baixo da minha mesa.
Por esses e outros motivos, perdí três quilos em duas semanas e estou muito
debilitado para arriscar escapar saltando pela janela.
Depois de nove andares o chão será implacável com o meu esquálido corpo.
Enquanto isso eu continuo estudando outras opções de fuga.
Como podem notar, meu censo de humor está nitidamente prejudicado pelo excessivo
estresse e pela falta de nutrientes vitais.
Como se não bastasse, as atuais pandemias globais estão estreitando as possíveis
fontes de proteínas e minerais, o que limita muito as opções alimentares.
Estou tendo que apelar para soluções alternativas.
Até escrevi um versinho enquanto esperava me trazerem o cardápio em uma bodega
sebenta cujo aspecto assusta até a ratos e baratas.
Galinha com gripe
Vaquinha com febre
Garçon por favor
me sirva uma lebre
Eu sei que exagero um pouco as vezes, mas qual arte não está carregada de
exageros.
Como criar um drama convincente sem nenhum exagero ?
Sim, semana passada eu tive um único dia de folga, pois o sábado e o domingo já
foram decretados como dias úteis por aqui.
Por uma sorte que eu não tenho igual para ganhar na loteria, esse dia de folga
coincidiu com o dia da oficina de Hai-Kais com a Alice Ruiz.
Essa oficina foi parte da programação do
Corredor literário na Paulista.
A oficina foi ótima, aprendi que escrever um Hai-Kai é um exercício de meditação
Zen, e como deve ser a estética e a temática.
Ou seja, descobri que eu não sabia absolutamente nada sobre o tema.
Mas foi proveitoso e de quebra eu até escrevi dois novos Hai-Kais.
Um deles para breve, assim que eu conseguir terminar o template comemorativo de
dez mil acessos do blog.
Aguardem, é realmente para logo.
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| » quinta-feira, 20 de outubro de 2005 |
A alegria de pobre dura pouco.
Mal cheguei de volta a São Paulo e logo fui escalado para turnos extras de
prolongados trabalhos escravo.
Por isso a demora em um novo post, mesmo que eu tivesse anunciado
o retorno para segunda-feira (lunes).
A preguiça sem fim também contribuiu bastante para me manter nesse estado de
letargia.
Para aqueles que não sabiam, eu viajei ao Peru na última semana, em busca de
conhecimentos históricos sobre a civilização Inca.
Tentarei resumir os principais pontos dessa viagem.
Mas antes, gostaria de agradecer ao diversos comentários e emails recebidos
durante os últimos dias.
Não tive tempo para visitar blogs, mas sempre havia um computador ou um
cyber-café por perto para que eu pudesse mandar notícias
online à Loira, que infelizmente ficou, e ler meus emails.
Muchas gracias.
O vôo de Guarulhos à Lima dura cinco horas, mas ganha-se duas horas em função do
fuso horário da costa do Pacífico.
A beleza das montanhas geladas da Cordilheira dos Andes e a imensidão do Lago
Titicaca são de tirar o fôlego de qualquer um.
Devo ter cara de gringo pois, ao entrar no restaurante do hotel para almoçar a
hostess sempre me fazia perguntas em inglês.
Só de sacanagem eu respondia tudo em espanhol, já que o meu objetivo secundário
era praticar a conversação nessa língua.
E assim mesmo nos entendemos muito bem.
Lima é uma cidade belíssima, mesmo sendo imensa, mas não tem muita coisa
interessante para se fazer quando se está em busca de ruínas Incas.
Como tudo nessa viagem começa muito cedo, o vôo de Lima à Cuzco parte às 6:00 e
teve duração de uma hora.
Cuzco é uma cidade com população preponderantemente de origem Quechua, o que
pode ser percebido pelo semblante e pela cor triguenha da pele de seus
simpáticos habitantes.
No auge do Império Inca, de tão importante, a cidade de Cuzco era considerada o
umbigo do mundo.
Logo ao chegar ao hotel nos deparamos com uma mesa com chá de coca e folha de
epadú para mastigação.
Tomei uma poltrona ao lado dessa mesa e comecei o ritual de adaptação a altitude.
Rapidinho eu atingi a altitude de cruzeiro e passei a ver as coisas com olhos
esgazeados de satisfação.
Fizemos algumas compras de peças de arte e encontramos um restaurante para
saborear um prato típico, o ceviche, preparado com peixe crú e frutos do mar
como camarão, lula e polvo curtidos no suco de limão.
Para beber, suco de milho escuro, chamado de chicha morada.
Durante a tarde visitamos diversas ruínas Incas dentro de uma igreja católica e
imensas ruínas na parte alta da cidade.
A qualidade e o requinte da arquitetura e das construções em pedra impressionam
mesmo quem já tinha lido a respeito e visto muitas fotos.
Sem dúvida é preciso visitar Cuzco para realmente conhecer sobre os Incas.
E subindo as escadarias das ruínas foi possível entender o que são os tais
efeitos da altitude, já que por falta de ar para respirar, fica-se cansado e
ofegante ao menor esforço.
À noite o jantar foi um delicioso e caprichado hamburger de carne de lhama e uma
botella de cerveza Cuzquenã.
Quem lê jornal certamente ficou sabendo sobre o desabamento, devido às chuvas,
que interrompeu a linha de trem e quase impediu que aproveitássemos a parte mais
esperada da viagem, as ruínas de Machu Pichu.
Felizmente a Companhia de trens PeruRail foi rápida em encontrar uma solução de
contorno, disponibilizando alguns ônibus para transladar os passageiros pelos
oito quilômetros em que a ferrovia estava interrompida.
Chegamos apenas com meia hora de atraso e logo tomamos um ônibus que nos levou
até o topo da montanha onde ficam as ruínas de Machu Pichu.
E conhecer essa cidade feita para resistir a terremotos, acompanhado por um guia
de grandes conhecimentos foi muito mais do que eu podia esperar.
No almoço um delicioso cui, uma espécie de porquinho-da-Índia
acompanhado de um drink feito com pisco sour, a pinga dos Quechua.
A volta a Cuzco foi um pouco conturbada devido ao desabamento e ao excesso de
turistas, o que nos tomou nove horas, ao invés das habituais três horas, mas o
sacrifício foi deveras compensador.
O passeio foi uma fabulosa aula de história, e após conhecer os habitantes
Quechua pude corroborar minha opinião de que os seres civilizados foram os Incas,
e não os assassinos bárbaros vindos da Espanha e liderados por Pinzón, que
simplesmente dizimaram uma civilização muito mais elevada do que os europeus
jamais serão.
Basicamente, isso foi o que aconteceu de importante.
Não vou me delongar muito para não parecer mais chato do que o habitual.
Em outra oportunidade eu escreverei uma crônica bem humorada sobre essa viagem.
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| » terça-feira, 11 de outubro de 2005 |
Com o pé na porta de saída ...
Hai-Kai
O poeta que parte, vai
perscrutar em terras de versos
motivos pra mais hai-kais.
Não se assustem, isso definitivamente não é o fim deste blog.
É apenas uma breve comunicado para dizer que em breve eu partirei em uma breve
viagem por terras distantes e inóspitas.
E eu não sei se será fácil encontrar um cyber-café por lá.
Muitos ficarão felizes com minha distância da blogosfera, pois eu estarei alguns
dias sem azucriná-los com meus comentários ácidos, ferinos, contundentes,
pontiagúdos e desagradáveis.
Quiçá um ou dois sintam falta do blogueiro mais inconveniente de toda a rede.
Para não deixá-los secos de ânsia por textos novos, amanhã haverá uma surpresa.
Durante minha Semana Hai-kai, a Luci do
100 Querer fez forte feitiço com 13 tufos de pêlo
de 13 caudas de 13 gatos pretos até que me convenceu a escrever 13 hai-kais para
ela publicar todos os dias 13 de 13 meses, por 13 anos.
Sem forças ou poderes para resistir aos encantos dos sórdidos sortilégicos da
Luci, eu escrevi um hai-kai em homenagem à esse número tão singular.
Não estarei presente para a Avant-Premiére de publicação do
hai-kai, mas estão todos convidados.
Nessas efusivas ocasiões festivas, ela costuma servir champanha à todos os seus
convidados.
Esperamos que apreciem.
Por hoje, é isso.
Em breve estarei de volta cheio de inspiração trazida das terras de além, e com
muitas novidades, isso, é claro, se o avião não cair no meio da selva e eu não
tiver meu raquítico corpinho e minhas entranhas servidos de aperitivo em um
banquete comemorativo de uma aldeia de selvagens índios canibais; e se não
ocorrer um desastroso desabamento nas montanhas que venha a soterrar todos os
turistas e passantes em uma catástrofe sem paralelos e que não deixará
sobreviventes; e se eu não tiver meu passaporte roubado por uma quadrilha de
contrabandistas internacionais e tenha que vagabundear vários anos pelas ruas
miseráveis de várias cidades da américa latina até que consiga enfim provar que
eu sou de fato um honroso cidadão brasileiro e não apenas mais um
hermano tentando entrar ilegalmente no país em busca de uma
portentosa vida de trabalho escravo e dos confortos da chibata e do açoite.
Rezem bastante.
Hasta el próximo lunes.
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| » sábado, 8 de outubro de 2005 |
Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar.
A vida é bela
Basta saltar
Pela janela.
Coisa rara:
Teu espelho
Tem minha cara.
( Millôr, Hai-Kais )
Um bibliófilo que se preze, além de rato de biblioteca é também rato de
livrarias e sebos.
É amigo pessoal de todas as bibliotecárias e sempre gosta de conversar com os
bons vendedores das livrarias e alfarrábios que frequenta.
E um bom vendedor de livros é aquele que realmente conhece do assunto, fazendo
sempre boas sugestões e trocando opiniões pessoais sobre os livros que está
vendendo ao cliente.
Ontem eu estive em minha livraria preferida para abastecer minhas prateleiras
com alguns novos títulos.
E tive o imenso prazer de conhecer uma simpática vendedora que, ao apreciar a
minha "lista de compras", me fez uma ótima sugestão.
Tivemos uma conversa muito prazerosa enquanto ela separava os meus títulos e
discutimos sobre alguns autores brasileiros que são verdadeiros baluartes da
nossa literatura.
E ela me entregou um cartão de visitas com o email dela para que eu lhe
escrevesse sobre minha opinião a respeito do título que me sugeriu.
Muito sagaz, aproveitei a deixa para fazer um marketing do meu blog, é claro.
Atualmente estou prestando serviços em um cliente que está em uma verdadeira
operação de guerra para implantar um novo sistema, e eu fui presenteado com o
turno da noite e madrugada para todo o mês de outubro.
Apesar de parecer ruim, tenho a oportunidade de dedicar-me a um dos meus maiores
prazeres durante o horário de expediente, já que pouca coisa de interessante
acontece nesse turno senão a espera pela ocorrência de problemas.
Ou seja, finalmente estou sendo pago (muito bem pago, diga-se de passagem) para
ler, motivo pelo qual ultimamente quando sou indagado sobre minha vida
profissional eu apenas respondo: "é trabalhoso, mas eu estou fazendo aquilo que
gosto".
E foi assim que na madrugada de hoje eu terminei a leitura do meu mais novo
volume do Kerouac, além de dois dos novos livros comprados ontem.
Um deles é sobre hai-kais, tema que está se tornando uma espécie de obsessão
pessoal.
Assim, o post de hoje é para comentar essas duas leituras.
  
HAI-KAIS, MILLÔR FERNANDES
Uma deliciosa coletânea de 115 hai-kais, geralmente muito divertidos, escritos
entre os anos de 1959 e 1986.
Na introdução o autor fornece uma breve iniciação à poética dos hai-kais.
 
O MONGE NEGRO, ANTON TCHEKHOV
Um notável acadêmico com dificuldades para dormir, esgotado pelo excesso de
estudos e trabalho no auge de sua genialidade e de sua loucura, começa a ter
alucinações e recebe visitas frequentes de uma visão de um monge negro.
Sua esposa ajuda-lhe a recuperar a saúde física e mental, mas após ter sido
curado é que ele sente-se doente pela mediocridade intelectual que é ser um
homem saudável e comum.
Linearmente escrito com uma prosa enxutíssima, o livro cria um interessante
clima de suspense, mesmo que o desfecho (que não é tão importante assim) esteja
patente desde quase o princípio.
Algo não me saiu à memória enquanto eu lia esse breve romance: partes do enredo
de "O clube da luta" lembram em muito a trama de Tchekhov.
Talvez por isso eu tenha gostado tanto.
Meu muito obrigado à Luciana Rede, que acertou em cheio na sugestão, já que eu
tenho de fato uma forte queda pela literatura fantástica.
- Mas se estou fisicamente doente, como posso acreditar em mim ? - E quem lhe disse que os homens de gênio, respeitados pelo mundo inteiro, não tiveram visões ? Diz a ciência de hoje que o gênio está muito próximo da loucura. Creia-me, as pessoas saudáveis e normais são vulgares: o rebanho. O medo do esgotamento nervoso, da superexaustão e da degenerescência só pode perturbar seriamente aqueles cujos objetivos na vida se encontram no presente: eis o rebanho.
( Anton Tchekhov, O monge negro )
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| » quinta-feira, 6 de outubro de 2005 |
O blog da minha amiga Dani Diniz .n.i.g.h.t.s.w.i.m.m.i.n.g. publicou hoje (06/10/2005) um hai-kai que eu escrevi de presente à ela. A estória desse presente está toda detalhada lá. Vale a pena conferir. Não somente pelo hai-kai que eu escrevi, mas porque o .n.i.g.h.t.s.w.i.m.m.i.n.g. é um excelente blog.
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| » domingo, 2 de outubro de 2005 |
De um bom romance espera-se personagem, enredo, reflexão metafísica e erótica, bem como uma irônica e sábia visão social. ... Nos grandes romances, personagens não se resumem a caracteres impressos sobre páginas; antes, são retratos pós-shakespearianos da realidade dos homens e mulheres: verdadeiros, prováveis, viáveis.
( Harold Bloom, Como e por que ler )
Se isso é o que diz o mais famoso crítico literário da atualidade sobre esse
estilo literário, então não há a menor dúvida de que "Os Maias" é um grande
romance.
E um grande romance da literatura portuguesa.
  
OS MAIAS, EÇA DE QUEIROZ
A tragédia da família Maia, dramaticamente reduzida pelas desgraças da vida, e
em parte, pela obtusa força exercida por Afonso da Maia, avô de Carlos, o
personagem principal desse romance.
A trama central, que gira em torno do amor de Carlos e de Maria Eduarda, é
permeada pela contumaz e irônica crítica à Portugal do final do século XIX.
Um romance com três grandiosos personagens, brilhantemente construídos por meio
de uma elaborada e deleitosa narrativa.
E não há maneira mais apropriada para melhor analisar um livro do que citar e
glosar alguns trechos marcantes.
E em um bom livro, não faltam trechos para serem citados.
Como bem escreveu Huxley, de que serve um livro que não tenha boas frases e
passagens que valham a pena ser lembradas ?
Felizmente, Maria Eduarda tomara a casa apenas ao mês, e estava pensando em ir passar à beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal. - De resto -- disse ela --, foi o que me aconselhou o meu médico em Paris, o dr. Chaplain. O dr. Chaplain ? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain. Ouvira-lhe as lições, visitara-o até intimamente na sua propriedade de Maisonnettes, ao pé de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um espírito bem superior ! - E tão bom coração ! -- disse ela com um claro sorriso, um olhar que brilhou. E esse sentimento comum pareceu de repente aproximá-los mais docemente; cada um nesse instante adorou o dr. Chaplain; e continuaram ainda falando dele prolongadamente, gozando, através dessa trivial simpatia por um velho clínico, a nascente concordância dos seus corações.
( Eça de Queiroz, Os Maias )
Um trecho que pode passar desapercebido ao leitor desatento, mas quem já
apaixonou-se por alguém há de concordar que são nos fatos e nas coisas mais
simplórias é que começam a brotar os sentimentos mais profundos.
E é a simpatia de ambos por esse conhecido em comum que inicia a centelha do
amor.
Por mais complexos que desejemos parecer, somos no fundo pateticamente medíocres.
Era necessário enxovalhá-lo de tal modo, com tal publicidade, que ele não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil ... Quando o coupé parou à porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Dâmaso, uma tarde, no Chiado, com aparato ... Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo. Pisara a linda rua de acácias que os pés dela pisariam na manhã seguinte; dera um longo olhar ao leito que seria o leito dela, rico, alçado sobre um estrado, envolto em cortinados de brocatel cor de ouro com um esplendor sério de altar profano ... Daí a poucas horas encontrar-se-iam sós naquela casa muda e ignorada do mundo; depois todo o verão os seus amores viveriam escondidos nesse fresco retiro de aldeia e daí a três meses estariam longe, na Itália, à beira dum claro lago, entre as flores de Isola Bela ... No meio dessas voluptuosidades magníficas, que lhe podia importar o Dâmaso, gorducho e reles, palrando em calão nos bilhares do Grêmio ! Quando chegou à Rua de S.Francisco resolvera, se visse o Dâmaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.
( Eça de Queiroz, Os Maias )
Cabe aqui a interpretação direta e piegas de que o amor faz esquecermos outros
sentimentos malévolos e mesquinhos que por ventura viríamos a desenvolver, claro.
Mas eu prefiro interpretar a atitude de Carlos como aquela que lhe cabe como um
cavalheiro que é, e como bem apontou Bloom sobre o que venha a ser um personagem
de um grande romance, Carlos é um personagem de incontestável verossimilhança.
E a raiva que Carlos sentiu, é algo que se enfraqueceu com a mesma facilidade
com que surgiu.
E esse é um comportamente perfeitamente normal a qualquer mortal sobre a Terra,
não a todos, mas a muitos.
- Sim, senhor, um navio fretado à custa da nação, em que se mandasse pela barra fora o rei, a família real, a cambada dos ministros, dos políticos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc. Carlos sorria, às vezes argumentava com ele. - Mas está o sr. Vicente bem certo de que apenas a cambada, com tão exatamente diz, desaparecesse pela barra fora, ficavam resolvidas todas as coisas e tudo atolado em felicidade ? Não, o sr. Vicente não era tão "burro" que assim pensasse. Mas, suprimida a cambada, não via S.Exª ? Ficava o país desatravancado; e podiam então começar a governar os homens de saber e de progresso ... - Sabe V.Exª qual é o nosso mal ? Não é má vontade dessa gente; é muita soma de ignorância. Não sabem. Não sabem nada. Eles não são maus, mas são umas cavalgaduras !
( Eça de Queiroz, Os Maias )
Se não tivesse sido retirado de um romance que se passou na Portugal do final do
século XIX, dir-se-ia que esse é um sentimento muito comum em milhões de
brasileiros do início do século XXI.
Por maiores que tenham sido as mudanças ocorridas no mundo em mais de cem anos,
o sentimento que se tem para com os políticos continua sendo uma constante.
As vezes eu tenho sonhos impossíveis de me tornar colunista da seção de
literatura de algum jornal ou revista.
É que eu realmente gosto de literatura.
Tanto gosto que compro livros sobre análise e crítica literária.
Outro dia eu fiquei entusiasmado com um anúncio de um curso de pós-graduação em
crítica literária.
Tão logo a Loira percebeu um leve sorriso no meu ardiloso olhar, lançou um
imenso cinzeiro de metal na minha direção.
Felizmente eu desviei a tempo, de forma que foram apenas sete pontos na testa.
"Isso é para você não me encher mais a paciência com essas suas idéias cretinas",
gritou ela enquanto o sangue ainda jorrava, tingindo um belo motivo tie-dye na
minha camiseta branca.
É por essas e outras que eu desisti da idéia.
Na verdade, também foi a agressividade da Loira que me fez declinar do desejo de
ter um piercing na língua.
Enquanto o médico suturava a minha testa, eu fiquei arrepiado ao imaginar a
Loira nervosa, e me beijando só para poder sacar o piercing da
minha língua.
Com os dentes.
Eu ficaria com a língua partida em dois, e aí ela ainda diria: "Melhor assim,
agora você é verdadeiramente o Rei Lagarto !"
Coisas do amor.
Piercing no falo então, é uma idéia que me causa convulsões só de
imaginar.
Melhor continuar lendo apenas por puro prazer.
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| » sexta-feira, 23 de setembro de 2005 |
O meu forte é comer.
Cozinhar, somente em situações de emergência.
Meus dotes culinários só servem para uns dois ou três pratos: lazanha de
micro-ondas, miojo com salsicha de galinha e quando estou em casa, também
arrisco uma pipoca de bacon.
No micro-ondas, é óbvio.
Quando a Loira viaja, eu me viro muito bem.
Na praça de alimentação do Shopping mais próximo, ou num dos restaurantes da
minha rede homologada.
Eu gosto muito de sanduíches.
E sou doente por açaí.
Algo caótico então aconteceu.
Assim, resolvi inventar uma bizarra combinação de pão francês com açaí.
Inpirado por em alguns posts do amigo Reinaldo, iniciamos uma parceria para
trazer à publico os segredos dessa deliciosa receita.
Confiram o resultado no
F*dido e Meio.
Bon apetit.
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| » quinta-feira, 22 de setembro de 2005 |
Caos, desordem, ausência de um padrão reconhecível e equacionável.
É essa aparente falta de lei e de ordem que parece reger nossas vidas.
Há sim uma linha mestra com alguma coerência, mas a todo tempo fatores externos
tentam desviar o rumo e descarrilar a composição.
Não que o caos seja de fato o que aparenta, mas apenas que nós tentamos adaptar
a realidade em um modelo mental, e para fazê-lo, aplicamos muitas simplificações.
Sumariamente ignoramos muitos fatores que nos parecem ser insignificantes.
E são justamente essas simplificações que fazemos, e que não deveriam ser
descartadas, que por um processo de propagação introduzem fatores de erro e
incerteza.
A ignorância de inúmeras variáveis de aparente pequena relevância propagam em
cascata erros e mais erros, até um ponto em que a lógica parece distorcida e
equivocada.
Sem explicação, algo sai errado, mas não sabemos o porque.
E assim é esse blog.
Não por acaso, há uma figura fractal no topo da coluna da direita, imagem que
mais precisamente ilustra o absoluto determinismo do caos.
A minha cabeça e o meu cérebro são bastante caóticos, pois quando eu penso em um
texto, imediatamente me surge outra idéia que suponho ser mais importante.
Daí eu atropelo tudo aquilo que eu mesmo tinha programado fazer.
Foi assim que na semana passada, do nada, eu escrevi a minha semana Hai-Kai.
Escombros senão de algum efeito borboleta mental.
A diretriz principal do blog, creio eu, continua muito bem definida.
Mas esses pequenos desvios ocorrem e sempre estarão presentes.
E eis mais um, assim, de sopetão.
Hai-Kai
Se tudo afinal
lhe parece o caos
aceite ciente que é o normal
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| » sexta-feira, 16 de setembro de 2005 |
E para encerrar bem a semana.
Hai-Kai Hai-Kai
Conceito complexo, desfeito
pequeno poema, marcante
desfecho dançante, perfeito
Se a miopia não se fez cegueira, há aí poesia.
Um hai-kai sobre os hai-kais.
Metalinguístico.
E se ele mesmo é compliante com as idéias que propõe, está totalmente
auto-contido.
Encerro aqui a minha Semana Hai-Kai.
Gostei muito de experimentar por esse tipo de composição, pois ela me impõe o
cabresto de ser sintético: três versos e nada mais.
E mesmo sem meus característicos exageros na prosa, fica sempre patente o meu
rebusco.
Não consigo escrever com a singela simplicidade sonora do Leminski.
E eu me esforçei tanto.
Aguardem uma citação quando eu comentar o delicioso "Distraídos Venceremos".
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| » quinta-feira, 15 de setembro de 2005 |
Para uma dose dura, uma dose dupla.
Hai-Kai
prenúncio ao descarte,
do jorro escarlate,
sandice funesta que sempre me abate
Hai-Kai
tensão
é pressão, que
aplaca o tesão
Para que não digam que eu sou implicante, nem a Loira se tolera quando está
próxima dos dias.
Por isso o tema me é tão recorrente.
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| » quarta-feira, 14 de setembro de 2005 |
Essa produção em série já está transformando-se em mania.
Hai-Kai
olhos vermelhos, vertendo um humor
carnes flácidas, escoando dos ossos
ganhar a vida é esse langor
Ainda preciso dizer que eu detesto acordar cedo para trabalhar como um escravo ?
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| » terça-feira, 13 de setembro de 2005 |
Para vencer a preguiça, minha receita infalível é um bom café.
Expresso e sem açúcar.
Hai-Kai (escrito em 25/08/2005)
A úlcera aberta, berra
meu leito desfeito deixo,
somente por quente café.
Eu tinha escrito esse hai-kai sob medida para o Pedro, do Café e Cafeína - Brasil.
Tudo bem que eu levei dois meses até alcançar a sonoridade e o ritmo que me
agradassem.
As vezes é muito trabalhoso escrever um poema decente.
Mas ele não me respondeu se ainda queria o hai-kai.
Assim, foi lançado em primeira mão para os fiéis leitores do alpha.
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| » segunda-feira, 12 de setembro de 2005 |
Hai-Kai
Urge animar-me, daqui fugir
vencer o torpor, produzir
se a preguiça, assim permitir
Baseado em fatos reais.
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